Como a convergência entre GHG Protocol e ISO está redefinindo a mensuração de emissões corporativas e pegada de carbono de produtos
Por: Lilian Velloso Pereira e Sandra Apolinario
A contabilidade de carbono está entrando em uma nova fase. A pressão por dados climáticos mais comparáveis, rastreáveis e úteis para decisões de negócio vem de vários lados ao mesmo tempo: cadeias de valor, clientes, investidores, regulações climáticas e instrumentos ligados ao comércio internacional. Nesse contexto, a aproximação entre GHG Protocol e ISO é um sinal relevante de que o mercado caminha para uma linguagem mais harmonizada de mensuração de emissões [5][6].
O ponto central deixa de ser apenas técnico e passa a ser estratégico. Empresas que ainda tratam o inventário de gases de efeito estufa (GEE) como mera obrigação legal correm o risco de ficar para trás em um ambiente em que a qualidade metodológica do dado climático passa a influenciar competitividade, credibilidade e capacidade de resposta a novas exigências de mercado [5][6].
O GHG Protocol continua sendo a referência mais difundida globalmente para inventários corporativos de emissões. Seu Corporate Standard é amplamente usado para inventários organizacionais, enquanto o Product Standard oferece uma estrutura para quantificação das emissões ao longo do ciclo de vida de produtos [1][2].
Em paralelo, a ISO consolidou um conjunto de normas amplamente utilizadas em contabilidade e quantificação de emissões, incluindo a série ISO 14064 para quantificação, relato e verificação de emissões e remoções de GEE em nível organizacional e de projeto, a ISO 14067 para pegada de carbono de produtos e, como base metodológica de Análise do Ciclo de Vida (ACV), as ISO 14040 e ISO 14044 [7][8].
A parceria anunciada entre ISO e GHG Protocol, em setembro de 2025, foi apresentada como uma resposta à fragmentação atual entre padrões, escopos, terminologias e abordagens das diretrizes existentes. O objetivo declarado é harmonizar portfólios existentes e codesenvolver novos padrões globais para mensuração e reporte de emissões [5][6].
A fragmentação metodológica atual já não é apenas um problema acadêmico. Ela gera custo, retrabalho e incerteza. Quando duas empresas usam metodologias diferentes para medir emissões de produto, ou quando inventários corporativos não se conectam bem com métricas de cadeia e produto, a comparabilidade fica enfraquecida e decisões estratégicas passam a se apoiar em dados que nem sempre conversam entre si [5][6].
O que está acontecendo na prática
Em 2026, ISO e GHG Protocol lançaram uma série de webinars para discutir a harmonização global da contabilidade de carbono. O mais recente foi realizado em abril e foi dedicado à contabilidade de carbono em nível de produto, no evento ISO-GHG Protocol Product-Level Carbon Accounting: What’s Next? [9][10].
O encontro reforçou que a harmonização tende a avançar também sobre a contabilidade em nível de produto para quem atua com pegada de carbono de produtos, ACV, Environmental Product Declarations (EPDs), requisitos de cadeia e comparabilidade internacional. A discussão sinaliza que a harmonização também afetará o campo da contabilidade em nível de produto, justamente onde hoje convivem diferentes abordagens, regras setoriais e desafios de comparabilidade [2][9][10].
Além disso, o GHG Protocol segue em processo de atualização da sua Corporate Suite, abrangendo Corporate Standard, Scope 2 Guidance, Scope 3 Standard e documentos de apoio. Isso reforça que o movimento atual não é pontual: trata-se de uma revisão estrutural do ecossistema de contabilidade de carbono [4].
Cronograma previsto e oportunidade de participação em 2027
Um ponto particularmente relevante do último webinar foi a apresentação de um cronograma indicativo para o processo conjunto de desenvolvimento do novo padrão harmonizado em nível de produto. Conforme apresentado, 2026 concentra as etapas de desenvolvimento e consultas iniciais; 2027 tende a concentrar a consulta pública, a recalibração e as aprovações; e a publicação permanece com data ainda a ser definida, após a conclusão dessas etapas [9][10].
O processo foi apresentado como multi-stakeholder, com participação ampla e engajamento ao longo do caminho. A consulta pública em 2027 aparece explicitamente como momento de oportunidade para engajamento externo. Para empresas, associações setoriais, especialistas, verificadores e demais atores da cadeia, trata-se de uma janela relevante para acompanhar o processo mais de perto e contribuir com visões técnicas e setoriais [9][10].
Apesar das datas indicativas, o recado é claro: a harmonização não é uma hipótese distante. Ela já está em construção e terá momentos formais de interação externa [5][9][10].
Urgências para preparação das empresas
Na prática, diante desse horizonte, as empresas já não deveriam perguntar apenas “qual norma seguimos?”. A pergunta mais útil agora é: nossa estrutura de dados, governança e critérios metodológicos está preparada para evoluir com o mercado?
Isso envolve pelo menos quatro frentes:
- Fortalecer a consistência do inventário corporativo
Organizações com baixa maturidade em delimitação de escopos, rastreabilidade de dados, critérios de consolidação e governança metodológica tendem a enfrentar mais dificuldades para responder a futuras exigências de cadeia, produto e verificação [1][4].
- Avançar do nível corporativo para o nível de produto
Em muitos setores, o inventário organizacional já não basta. Clientes e mercados começam a demandar dados mais granulares, inclusive para compreender diferenças entre rotas produtivas, matérias-primas, intensidade energética e emissões associadas ao ciclo de vida dos produtos e à prestação de serviços [2][7].
- Garantir comparabilidade para ter competitividade
Quanto mais o mercado se orienta por dados de carbono com efeitos comerciais, reputacionais ou regulatórios, menos espaço haverá para abordagens opacas ou pouco harmonizadas [5][6].
- Estruturar a preparação institucional
Mesmo quando uma empresa ainda não precisa divulgar formalmente a pegada de carbono de seus produtos, ela já deveria construir os alicerces metodológicos e de governança que permitam esse avanço sem improviso. Quem deixar isso para depois tende a responder sob pressão e com maior custo [4][5].
O que vale revisar agora
- A base metodológica do inventário corporativo, incluindo critérios de consolidação, escopos, fatores de emissão, governança documental e rastreabilidade [1][4].
- A prontidão para métricas de produto, verificando se os dados operacionais hoje disponíveis permitem uma futura quantificação robusta da pegada de carbono de produtos [2][7].
- A integração entre áreas, porque carbon accounting já não é tema restrito à sustentabilidade: envolve operação, engenharia, compras, cadeia de suprimentos (supply chain), qualidade, Tecnologia da Informação (TI), finanças e, em alguns casos, estratégia comercial.
- A governança para revisão e atualização, com método documentado, fontes definidas, critérios de qualidade e rotina de revisão periódica [4][5].
Conclusão
A convergência entre GHG Protocol e ISO é mais do que uma notícia do mundo da normalização. Ela é um sinal claro de que a contabilidade de carbono está deixando de ser um mosaico de abordagens para caminhar em direção a maior coerência global [5][6].
Para as empresas, isso reforça uma mensagem simples: não basta mais medir emissões. Será cada vez mais importante medir com método, governança, comparabilidade e capacidade de evolução.
Nesse cenário, empresas que anteciparem a estruturação de seus processos de carbon accounting tendem a ganhar vantagem em confiabilidade, comparabilidade e capacidade de resposta às novas demandas de mercado.
Isso inclui desde a revisão metodológica de inventários corporativos até a preparação para métricas de produto, integração de dados, governança documental, rastreabilidade e suporte à verificação. Mais do que atender exigências atuais, o desafio passa a ser construir sistemas de gestão climática capazes de evoluir junto com os novos padrões globais de contabilidade de carbono.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de apoio técnico para que as empresas avancem com segurança em temas como inventários de gases de efeito estufa (GEE), revisão metodológica, pegada de carbono de produtos, Análise do Ciclo de Vida (ACV), preparação para Environmental Product Declarations (EPDs), estruturação de dados e rastreabilidade, governança climática e preparação para requisitos internacionais.
Se esse tipo de desafio já faz parte da sua agenda, ou está prestes a entrar, estamos à disposição para trocar ideias e apoiar a construção de soluções técnicas consistentes e aplicáveis à realidade do seu negócio.
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Referências e links úteis
- GHG Protocol – Corporate Standard: https://ghgprotocol.org/corporate-standard
- GHG Protocol – Product Standard: https://ghgprotocol.org/product-standard
- GHG Protocol – Standards & Guidance: https://ghgprotocol.org/standards-guidance
- GHG Protocol – Corporate Suite Update Process: https://ghgprotocol.org/ghg-protocol-corporate-suite-standards-and-guidance-update-process
- ISO – anúncio da parceria estratégica com o GHG Protocol (09/09/2025): https://www.iso.org/news/2025/09/iso-and-ghgp-partnership
- GHG Protocol – FAQ da parceria ISO-GHG Protocol: https://ghgprotocol.org/blog/iso-ghg-protocol-partnership-frequently-asked-questions
- ISO 14067 – página oficial da norma: https://www.iso.org/standard/71206.html
- ISO 14064-1:2018 – página oficial da norma: https://www.iso.org/standard/66453.html
- Webinar / evento – ISO-GHG Protocol Product-Level Carbon Accounting: What’s Next?: https://hub.wri.org/events/2026/4/iso-ghg-protocol-product-level-carbon-accounting-whats-next
YouTube – gravação do webinar: https://www.youtube.com/watch?v=qW9o7NrB4W0&t=6s
