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ESG NO SETOR DE AUTOPEÇAS

Um resumo dos tópicos materiais e indicadores ESG para empresas do setor.

Para a indústria de autopeças, ESG já não é apenas uma agenda de reputação. Pressões de montadoras, requisitos de descarbonização, critérios de reciclabilidade e maior rigor sobre segurança, materiais críticos e rastreabilidade estão tornando o tema parte da competitividade do setor. Em outras palavras, quem fornece para a cadeia automotiva precisa demonstrar não só qualidade e preço, mas também capacidade de gerir riscos, inovar em produto e responder com agilidade às exigências crescentes de clientes, financiadores e reguladores.

No Brasil, essa urgência fica ainda mais clara com o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER). Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o programa amplia as exigências de descarbonização da frota automotiva brasileira e incorpora critérios como eficiência energética, reciclabilidade e, a partir de 2027, pegada de carbono do produto, reforçando a tendência de que requisitos ESG se tornem cada vez mais relevantes ao longo da cadeia automotiva (MDIC, 2024a; MDIC, 2024b).

As empresas do setor de autopeças fornecem componentes e acessórios diretamente às montadoras. As peças produzidas incluem sistemas de exaustão, rodas, pneus, retrovisores, componentes elétricos e eletrônicos embarcados, sistemas híbridos e alternativas de propulsão, por exemplo. Nesse contexto, a agenda ESG deixa de ser periférica e passa a dialogar diretamente com eficiência operacional, custos, acesso a capital, inovação e relacionamento com clientes.

Segundo a norma SASB Auto Parts – Sustainability Accounting Standard (2023), sob a governança do ISSB/IFRS Foundation, os temas que tendem a ser financeiramente mais relevantes para o setor estão organizados em tópicos que combinam meio ambiente, inovação de produto, segurança, gestão de materiais e governança. Esses temas, apresentados de forma resumida na Figura 1, funcionam como um bom ponto de partida para empresas que desejam estruturar prioridades, indicadores e narrativas de reporte voltadas ao mercado. Considerando o avanço das exigências de descarbonização na cadeia automotiva, inclui-se também a gestão de gases de efeito estufa (GEE) como tema complementar prioritário no eixo ambiental.

Figura 1 – Temas materiais para o setor de autopeças.

A seguir, os tópicos são apresentados de forma prática, com foco em riscos, oportunidades e exemplos de indicadores que podem orientar a gestão no setor.

1) MEIO AMBIENTE

Gestão de energia

A fabricação de autopeças consome eletricidade e combustíveis em diferentes etapas produtivas, gerando emissões diretas e indiretas de gases de efeito estufa. A SASB destaca que a eletricidade comprada da rede representa parcela relevante do consumo energético do setor. Por isso, eficiência energética, dependência da rede, autoprodução e uso de fontes renováveis deixam de ser apenas temas ambientais e passam a influenciar risco de custo, exposição regulatória e resiliência operacional.

Indicadores-chave: consumo total de energia e percentual de eletricidade da rede e percentual de energia renovável.

Gestão de gases de efeito estufa (GEE)

Embora a norma SASB Auto Parts não trate a gestão de GEE como um tópico autônomo, o tema ganha centralidade para o setor diante das exigências crescentes de descarbonização na cadeia automotiva. Na prática, a gestão de emissões se conecta à matriz energética das fábricas, ao uso de combustíveis nos processos, à compra de eletricidade, à eficiência produtiva, à logística e, em alguns casos, à própria estratégia de produto. Para empresas que fornecem a montadoras e integram cadeias globais, medir emissões, definir metas e demonstrar trajetória de redução tende a se tornar cada vez mais importante para competitividade, acesso a clientes e preparação regulatória.

Indicadores-chave: emissões absolutas de GEE (escopos 1 e 2 e, quando relevantes, categorias materiais de escopo 3), intensidade de emissões por unidade produzida (ou por tonelada de produto) e metas de redução.

Gestão de resíduos

A produção de autopeças utiliza aço, ferro, alumínio, plásticos, lubrificantes, fluidos de usinagem, solventes de limpeza e tintas. Isso faz com que o setor gere resíduos industriais relevantes, inclusive resíduos perigosos. A gestão adequada desses fluxos reduz risco regulatório, pode melhorar a eficiência no uso de materiais e contribuir para economia de custos por meio de reciclagem, reúso e melhor controle do processo produtivo.

Indicadores-chave: volume total de resíduos, percentual de resíduos perigosos e percentual reciclado.

2) CAPITAL SOCIAL – impacto do produto nos consumidores

Segurança do produto

No setor de autopeças, falhas de qualidade e segurança podem resultar em recalls, custos de remediação, litígios, danos reputacionais e perda de confiança das montadoras. À medida que os veículos incorporam mais eletrônica e sistemas sofisticados, o controle da segurança do produto torna-se ainda mais estratégico. Uma gestão robusta de qualidade, rastreabilidade e resposta rápida a defeitos ajuda a proteger receitas e relacionamentos comerciais de longo prazo.

Indicadores-chave: número de recalls, número de unidades ou veículos afetados e discussão sobre recalls relevantes, inclusive causas e ações corretivas.

3) MODELO DE NEGÓCIOS E INOVAÇÃO

Design para eficiência de combustível e redução de emissões

A norma também destaca a oportunidade de crescimento associada a produtos que ajudam a aumentar a eficiência energética dos veículos ou reduzir emissões em sua fase de uso. Isso inclui componentes ligados à eletrificação, redução de peso, melhor aerodinâmica, sistemas de gestão do motor, tecnologias híbridas, pneus de baixa resistência ao rolamento e outras soluções com contribuição mensurável para desempenho ambiental do veículo.

Indicadores-chave: receita proveniente de produtos concebidos para aumentar a eficiência de combustível ou reduzir emissões.

Eficiência de materiais e circularidade

A circularidade aparece de forma relevante na SASB para autopeças. O setor pode capturar valor ao projetar componentes recicláveis, reutilizáveis ou remanufaturáveis, além de ampliar o uso de insumos reciclados e conteúdo remanufaturado. Essa agenda contribui para redução de custos de materiais, menor exposição à volatilidade de insumos e melhor posicionamento diante das exigências de transição para uma economia mais circular.

Indicadores-chave: percentual de produtos vendidos que são recicláveis e percentual de materiais de entrada provenientes de conteúdo reciclado ou remanufaturado.

Abastecimento de materiais críticos

Muitas autopeças dependem de metais e outros materiais críticos com oferta concentrada, poucos substitutos e sensibilidade a riscos geopolíticos, regulatórios, reputacionais e de preço. A SASB cita, por exemplo, terras raras, metais do grupo da platina, cobalto, grafite, magnésio, tântalo e tungstênio. Para empresas expostas a esses insumos, torna-se essencial mapear dependências, avaliar risco de ruptura de fornecimento e definir estratégias de mitigação, como diversificação de fornecedores, desenvolvimento de materiais alternativos, estoques de segurança e investimentos em reciclagem.

Indicadores-chave: descrição da gestão de riscos associados ao uso de materiais críticos, identificação dos principais riscos e estratégias de mitigação.

4) LIDERANÇA E GOVERNANÇA

Comportamento concorrencial

A governança comercial é um tema material na norma para autopeças. Em mercados com competição concentrada por categoria de produto, práticas anticoncorrenciais — como cartel, fixação de preços, cláusulas abusivas de exclusividade, uso indevido de patentes ou outras condutas antitruste — podem resultar em perdas financeiras relevantes, sanções e danos reputacionais. O tema exige programas de compliance concorrencial, treinamento e controles capazes de prevenir desvios antes que eles se transformem em contingências.

Indicadores-chave: perdas monetárias decorrentes de processos judiciais ou regulatórios ligados a condutas anticoncorrenciais, com breve descrição do contexto e das ações corretivas adotadas.

Conclusão

No setor de autopeças, ESG se conecta diretamente à operação e ao valor do negócio: energia, GEE e resíduos afetam custos, conformidade e preparação para a transição de baixo carbono; segurança do produto influencia confiança e continuidade comercial; inovação para eficiência e circularidade abre espaço para novas receitas; materiais críticos pressionam a cadeia de suprimentos; e governança concorrencial protege a empresa de perdas relevantes.

Para empresas que desejam começar ou amadurecer sua agenda, a SASB oferece um mapa objetivo de temas e métricas que pode ajudar a priorizar diagnósticos, políticas, metas e indicadores. Complementada por uma gestão mais robusta de emissões de GEE, essa agenda também fortalece a capacidade de responder às novas exigências da cadeia automotiva brasileira. Mais do que uma pauta de reporte, trata-se de uma ferramenta de gestão para identificar riscos e oportunidades com maior potencial de impactar desempenho e competitividade.

Quer saber mais sobre como gerir esses temas e indicadores? Clique aqui e entre em contato conosco.

Referências

MDIC. Programa MOVER. Gov.br. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/setor-automotivo/programa-mover. Acesso em: 24 abr. 2026.

MDIC. Presidente sanciona lei do Programa Mover. Gov.br, 27 jun. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2024/junho/presidente-sanciona-lei-do-programa-mover. Acesso em: 24 abr. 2026.

IFRS Foundation. Auto Parts – Sustainability Accounting Standard (TR-AP), Industry Standard, Version 2023-12.