Um resumo dos setores em que este tema é relevante e exemplos de métricas para gestão e acompanhamento.
Quando se fala em ESG, é comum que a conversa comece por clima, poluentes, resíduos ou governança. Mas, para muitas empresas, um dos temas mais sensíveis para a operação está dentro de casa: a forma como o trabalho é organizado, os riscos aos quais as pessoas estão expostas e a capacidade da empresa de prevenir acidentes, doenças ocupacionais e falhas graves de processo.
Saúde e Segurança do Trabalho (SST) deixou de ser uma pauta tratada apenas por um departamento específico da empresa. Cada vez mais, o tema dialoga com continuidade operacional, produtividade, retenção de talentos, reputação, relacionamento com clientes e investidores, além de custos relacionados a afastamentos, passivos, interrupções, seguros e remediações.
É justamente por isso que uma abordagem setorial é importante. Tomando as normas SASB como referência, é possível identificar diversos segmentos em que SST é elencado como tópico material, ou seja, como um tema capaz de afetar o desempenho e a criação de valor no médio e no longo prazo. Em vez de tratar o assunto de forma genérica, esse olhar ajuda a entender questões específicas do setor: quando a segurança está mais ligada a processos industriais, quando depende de condições de jornada, quando envolve frota, exposição crônica, terceiros ou operação em campo, por exemplo.
Neste artigo, reunimos uma visão mais ampla e prática sobre SST como tópico material ESG, com foco nos setores em que esse tema tende a ser especialmente relevante e em exemplos de indicadores de gestão que podem apoiar o amadurecimento da agenda nas empresas.
Setores onde SST é mais relevante
A triagem setorial preliminar indica grupos de atividades em que SST costuma ganhar maior relevância sob a ótica ESG, especialmente quando há operação intensiva, trabalho em campo, uso de máquinas e equipamentos, exposição a agentes físicos, químicos ou biológicos, logística complexa, terceirização significativa ou risco de eventos críticos, como:
- Processamento de matérias-primas e minerais: mineração e metalurgia, ferro e aço, materiais de construção, petróleo e gás.
- Alimentos e bebidas: produtos agrícolas, carnes, aves e laticínios.
- Saúde: prestação de serviços de saúde, como hospitais, clínicas e outros serviços assistenciais.
- Infraestrutura: serviços de engenharia e construção e gestão de resíduos.
- Recursos renováveis e energias alternativas: células a combustível e baterias industriais, tecnologia eólica e desenvolvimento de projetos.
- Indústria de transformação: indústria química, maquinário e bens industriais.
- Serviços: instalações de lazer e jogos.
- Tecnologia e comunicação: serviços de manufatura eletrônica e design original, semicondutores.
- Transporte: frete aéreo e logística, transporte marítimo, ferroviário e rodoviário.
A lista acima não pretende ser exaustiva. SST é, sem dúvida um assunto que precisa ser cuidado por todas as empresas, sem exceção. Mas a materialidade de SST e quanto ela afeta o valor da empresa, também depende do modelo de negócio, do desenho da operação, da distribuição geográfica das unidades, da dependência de terceiros e da natureza dos riscos críticos da atividade.
Por que SST é um tópico material sob a ótica ESG
Em termos práticos, SST se torna material quando sua boa ou má gestão pode alterar desempenho operacional, condição financeira, reputação ou capacidade de crescimento. Um acidente grave, uma fatalidade, uma doença ocupacional recorrente, um evento com contratados ou uma falha de segurança de processo podem gerar paralisações, autuações, litígios, perda de produtividade, aumento do custo do capital e desgaste relevante perante clientes, trabalhadores e comunidades.
Além dos eventos agudos, muitos setores convivem com riscos cumulativos e silenciosos: poeiras, ruído, vibração, calor, agentes biológicos, substâncias perigosas, ergonomia inadequada, fadiga, jornadas extensas e exposição a ambientes críticos. Por isso, o tema não deve ser lido apenas como prevenção de acidentes, mas como gestão integrada de riscos à saúde e à integridade física.
Do ponto de vista ESG, isso significa que SST ocupa um espaço de interseção entre o pilar social e a governança: envolve cuidado com pessoas (capital humano), mas também exige política, responsabilidade definida, alçadas claras, dados confiáveis, investigação detalhada de incidentes, resposta rápida e melhoria contínua.
Exemplos de indicadores de gestão
Embora possam variar de setor para setor, as métricas mais utilizadas, ou requeridas por normas de reporte como as SASB, tendem a convergir em alguns grupos de indicadores que ajudam a estruturar a gestão de SST de forma mais madura e útil para tomada de decisão:
- Indicadores básicos de segurança, como taxa de frequência de acidentes (com e sem afastamento), taxas de fatalidades e frequência de quase-acidentes.
- Recortes por categoria de trabalhador, distinguindo empregados próprios, contratados e, quando aplicável, trabalhadores sazonais, migrantes ou outros grupos mais expostos.
- Indicadores ligados a exposição ocupacional e efeitos crônicos à saúde, especialmente em operações com poeiras, sílica, agentes químicos, condições respiratórias, calor, ruído ou outras exposições relevantes.
- Métricas relacionadas à segurança de frota e operação em campo, incluindo acidentes e incidentes de transporte, conformidade com jornada, aptidão de condutores, manutenção e controles críticos.
- Indicadores de segurança operacional e prontidão para resposta a emergência, relevantes em atividades com processos industriais, substâncias perigosas, equipamentos críticos ou potencial de eventos de maior severidade.
- Informações qualitativas sobre políticas, práticas, treinamentos, mecanismos de monitoramento, investigação de causas, ações corretivas e esforços de prevenção.
O ponto central é que uma boa gestão não depende de um único número. Em geral, empresas mais maduras combinam indicadores de resultado com indicadores preventivos, para enxergar não apenas o que já deu errado, mas também a qualidade dos controles que evitam que novos eventos aconteçam.
Como o tema varia conforme o perfil de risco setorial
A materialidade de SST não se manifesta da mesma forma em todos os setores. Em atividades industriais e de transformação, o foco tende a recair com mais força sobre integridade física, exposição a agentes perigosos, doenças ocupacionais e segurança de processo. Em construção, infraestrutura e mineração, entram com destaque os riscos operacionais em campo, contratadas, máquinas pesadas, queda de materiais, poeiras e condições ambientais adversas.
Nos transportes e na logística, o tema se conecta de forma mais intensa à fadiga, extensão da jornada, direção segura, integridade da frota e incidentes viários. Já em serviços de saúde, a materialidade pode estar mais associada a riscos biológicos, ergonomia, sobrecarga, saúde mental e continuidade de atendimento. Em tecnologia industrial, manufatura eletrônica e semicondutores, também podem ganhar relevância a exposição ocupacional, a gestão de salas técnicas, manutenção e continuidade de sistemas críticos.
Essa leitura é importante porque evita soluções padronizadas. A empresa precisa entender quais riscos realmente se aplicam a sua operação para então escolher indicadores, metas e planos de ação coerentes com esse contexto.
Resumo prático de indicadores
A tabela abaixo reúne exemplos de indicadores que podem ser úteis como ponto de partida para uma agenda de SST mais estruturada e alinhada à lógica de materialidade setorial:

O que esse tema pede das empresas
Tratar SST como tópico material significa ir além da contagem de acidentes. Significa colocar o tema na estratégia e na rotina de gestão, com envolvimento da alta direção, responsabilidades claras, metas compatíveis com o perfil de risco, monitoramento periódico, investigação consistente de eventos e integração com decisões operacionais.
Na prática, isso costuma envolver uma combinação de ações: mapear riscos críticos, revisar controles, fortalecer treinamentos, dar visibilidade aos indicadores para a liderança, melhorar a gestão de terceiros, acompanhar exposições ocupacionais, estruturar planos de resposta e criar uma cultura em que o quase-acidente também gera aprendizado.
Também significa reconhecer que SST não é assunto isolado. Ele conversa com produtividade, clima organizacional, conformidade, reputação, continuidade operacional e qualidade da execução. Quanto mais cedo a empresa enxerga isso, mais capacidade ela ganha de atuar de forma preventiva, e não apenas reativa.
Para empresas que desejam amadurecer sua atuação, esse pode ser um excelente ponto de partida: tratar SST não apenas como obrigação, mas como parte da estratégia de sustentabilidade, resiliência e criação de valor.
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Referências
IFRS Foundation / SASB Standards. Normas setoriais SASB utilizadas como referência para identificação de materialidade e exemplos de métricas de Saúde e Segurança do Trabalho em setores selecionados. Disponível em: https://navigator.sasb.ifrs.org/login Acesso em: 30 de abril, 2026.
