O que muda na preparação e por que isso pode fortalecer a estratégia e a competitividade das empresas.
Um dos principais equívocos sobre as Normas IFRS S1 e IFRS S2 é tratá-las como uma evolução natural dos relatórios ESG tradicionais. Embora exista a abrangência de temas ambientais, sociais e de governança, a lógica das normas do ISSB é diferente: o objetivo é divulgar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade que sejam úteis para investidores e demais usuários dos relatórios financeiros para fins gerais. (IFRS Foundation, 2023a; IFRS Foundation, 2023b).

Isso muda o ponto de partida.
Independentemente do estágio de adoção regulatória em cada mercado, em caráter voluntário ou obrigatório, essa abordagem representa uma tendência internacional de convergência entre sustentabilidade, gestão de riscos e informação financeira, cada vez mais valorizada por investidores, financiadores, seguradoras e cadeias globais de valor.
Esse é o coração da materialidade financeira nas Normas IFRS S1 e S2. A informação é material quando sua omissão, distorção ou obscurecimento puder razoavelmente influenciar decisões dos usuários dos relatórios financeiros para fins gerais. Portanto, a análise não se limita à relevância reputacional ou institucional do tema. Ela exige uma avaliação sobre a capacidade daquele risco ou oportunidade afetar a performance, a posição financeira, os fluxos de caixa e o valor da empresa. (IFRS Foundation, 2023a).
Neste sentido, as Normas SASB são uma fonte obrigatória de orientação para a IFRS S1 e servem como base para a orientação setorial da IFRS S2. Elas servem como referência para identificação de riscos, oportunidades e métricas a serem utilizadas. Sendo assim, as empresas que já utilizam as Normas SASB para divulgar informações encontram uma base importante para fortalecer processos de identificação de riscos, oportunidades e métricas financeiras relacionadas à sustentabilidade, facilitando futuras jornadas de alinhamento às IFRS S1 e S2.
Essa abordagem não elimina a importância de outras normas e estruturas, como GRI, inventários de emissões, relatórios de impacto ou indicadores setoriais. Pelo contrário, esses instrumentos podem ser complementares. Mas, para fins de IFRS S1 e S2, o filtro de decisão é voltado ao investidor. A empresa precisa explicar o que é financeiramente relevante, como isso foi avaliado e de que forma está conectado à estratégia e à gestão do negócio.
Outro ponto importante é a conectividade. As informações de sustentabilidade não devem parecer um bloco isolado, desconectado das demonstrações financeiras. A IFRS S1 exige que as divulgações sejam preparadas para a mesma entidade que reporta nas demonstrações financeiras correspondentes e cubram o mesmo período de reporte. A lógica é permitir que o usuário entenda as conexões entre riscos, oportunidades, estratégia, métricas, metas e efeitos financeiros. (IFRS Foundation, 2023a).
Na prática, isso representa uma oportunidade de evolução da maturidade corporativa. Para muitas organizações, trata-se menos de construir algo do zero e mais de conectar iniciativas já existentes em um modelo integrado de gestão e reporte. Não basta listar iniciativas positivas. Um relatório orientado pelas Normas IFRS S1 e S2 deve permitir que o usuário compreenda como a empresa identifica, avalia, prioriza, monitora e gerencia riscos e oportunidades. Deve apresentar informações sobre governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas. E deve fazer isso com clareza, comparabilidade, verificabilidade, oportunidade e compreensibilidade.
Por isso, a preparação para o reporte não deve começar pela redação do documento final. Deve começar pela organização da base: governança, materialidade financeira, inventário de dados, processos internos, controles, responsabilidades e trilhas de evidência. Só depois o relatório consegue ser uma consequência natural de um processo sólido.
Mesmo em ambientes de adoção voluntária, preparar essa base pode gerar benefícios relevantes em governança, acesso a capital e relacionamento com investidores. Sua empresa já iniciou essa jornada?
Referências
IFRS Foundation. IFRS S1 General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information. 2023a. Disponível em: https://www.ifrs.org/issued-standards/ifrs-sustainability-standards-navigator/ifrs-s1-general-requirements/
IFRS Foundation. IFRS S2 Climate-related Disclosures. 2023b. Disponível em: https://www.ifrs.org/issued-standards/ifrs-sustainability-standards-navigator/ifrs-s2-climate-related-disclosures/ IFRS Foundation. Accompanying Guidance on IFRS S1. 2023. Disponível em: https://www.ifrs.org/issued-standards/ifrs-sustainability-standards-navigator/ifrs-s1-general-requirements/
